segunda-feira, 3 de julho de 2017

OKJA - um filme sobre contradições cotidianas




O filme Okja, dirigido por Bong Joon Ho e recentemente lançado na Netflix (28/6/2017), prova que é possível criar uma relação de empatia com criaturas quase monstruosas, as quais não inspirariam nenhum carinho na maior parte das pessoas à primeria vista.
Trata-se da história de uma super porca que mais parece um hipopótamo criada geneticamente em um laboratório nos EUA e que vive nas montanhas da Coréia do Sul com uma garota, Mija. O filme começa mostrando a rotina das duas na floresta, seus códigos de comunicação e até um episódio em que Okja salva Mija de cair de um penhasco se jogando em seu lugar. Há muito afeto na relação entre elas e uma calma de quem vive junto, em família. Mas, 10 anos depois, a empresa americana que havia incubido mija de criar Okja volta à Coréia do Sul para levar a super porca de volta à Nova York e fazer o lançamento de sua carne no mercado. E o filme segue mostrando esse conflito entre Mija, que quer salvar sua amiga do abatedouro, a empresa que investiu no animal e quer lucrar com a comercialização dos super porcos e um grupo de ativistas pró animais que quer expor a crueldade da indústria da carne.
Mas engana-se quem acha que o filme é exclusivamente uma apologia ao vegetarianismo e que o faz dando um nome ao animal e envolvendo o telespectador em uma relação de carinho com Okja. Paralelamente a isso há uma ironização bem humorada dos ativistas pró animais, pouco congruentes em suas atitudes e quase inocentes muitas vezes, e ainda, a própria Mija não é vegetariana. Ela e seu avô consomem outros animais e toda a aventura do filme se passa a partir da determinação de Mija em salvar Okja, não em acabar com a indústria da carne.

Assim, de forma extremamente bonita, bem humorada e respeitosa, o filme consegue nos fazer pensar sobre questões que caíram no esquecimento do nosso dia a dia. Contradições como porque temos tanta empatia por cachorros e gatos enquanto comemos um filé de vaca, como ouvimos discursos de paz proferidos por grupos que buscam essa paz através de violência, como apostamos na veracidade de políticas eco-friendly e “orgânicas” sem de fato sabermos quanto correspondem à verdade do produto que consumimos e ainda, como deixamos de questionar as práticas de reprodução e abate dos animais cuja carne abastece os supermercados. Tudo isso através de uma trama emocionante e delicada, muita ação e paisagens belíssimas.
Por: Ligia Ungaretti Jesus, Psicanalista. 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Winter, O Golfinho





Winter, O Golfinho (2011) é um filme norte americano dirigido por Charles Martin Smith. É um filme como poucos... divertido, alegre e emocionante. Ele consegue falar sobre um tema bastante difícil para a nossa sociedade, a inclusão. O filme é baseado em fatos reais: Winter, o golfinho, foi encontrado em 2005, enroscado em uma armadilha de caranguejo, numa praia da Flórida e levado para o Clearwater Marine Aquarium, um Hospital de criaturas marinhas. Por ter ficado tanto tempo enroscado, é preciso amputar sua cauda, dificultando sua forma de nadar.

No filme, ele é encontrado por Sawyer, um menino de 11 anos, solitário e sem nenhuma motivação para os estudos. Sawyer estabelece uma singular relação de amizade com o golfinho, começa a frequentar o Hospital e uma nova vida se abre para ele.

Com o tempo, a equipe percebe que algo precisa ser feito pois a forma com que Winter nada a prejudica, atingindo sua vértebra de maneira a possivelmente matá-la no futuro. Novamente o menino Sawyer busca uma solução para o querido golfinho. Sawyer tem um primo que, no exército, perdeu um pé e colocou uma prótese. O menino foi conversar com a pessoa que faz próteses e criam uma solução de prótese para o golfinho.

A trama não se restringe a isso. Paralelamente, o Hospital Marinho está quase para fechar, sem verba para continuar tratando os animais enfermos. Muito possivelmente uma construtora comprará o terreno para novos empreendimentos.

Novamente a solução vem de Sawyer. Uma festa de arrecadação de verba para Winter e sua prótese arremata todos os pontos da trama. Winter e sua prótese ficam famosas. Saem nos jornais e TVs. Muitas crianças com prótese querem conhecê-la. A construtora percebe um filão lucrativo unido à cidadania.

Smith, o diretor do filme, consegue o que poucos conseguem. Falar de amputação de membros, reabilitação e acesso a cadeirantes, sem cair em discussões piegas, ao contrário, deixa o filme leve, alegre e emocionante. Com a ajuda dos ótimos atores, consegue colocar um menino como ator principal da trama sem efeitos especiais hollywoodianos. Pelo contrário, Sawyer tem crises de consciência, fragilidades e age como um simples menino, inteligente e interessado, mas um menino, o que dá maior veracidade para a trama. No começo, podemos ver que Sawyer tinha tudo para ser o que, nos Estados Unidos, chamam de loser. Não tinha amigos, vivia sozinho e ia mal na escola. Então, o filme aponta algo bem psicanalítico. Quando o sujeito encontra o seu desejo, ele se transforma! Sawyer tem talento com animais marinhos. Tem jeito e interesse. A partir disso, sua “máquina humana” põe-se a funcionar. Sawyer passa a ter ideias, criatividade, dedicação; estuda, faz laço social, batalha, vive!

Em Winter, o Golfinho 2, a aventura continua tão emocionante quanto antes. O filme consegue discutir a inclusão de pessoas e animais com necessidades especiais, além da inclusão psíquica. No segundo filme, Winter passa por um período de depressão pois sua companheira de aquário falece e assim, novas conquistas são necessárias. Sempre com ética, ressalta o diretor do aquário, em uma das mais belas cenas em que um golfinho, após o tratamento, é liberado ao mar e tem a alegria de nadar naquela imensidão, reencontrando seu cardume.


Um filme emocionante que fala de amizade, companheirismo, trabalho e dedicação. Fragilidades, dificuldades e superações. Merece ser visto!

Por: Fabiana Ratti, psicanalista

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Passageiros e Jakob von Gunter um diário



Passageiros (2016), filme estadunidense dirigido por Morten Tyldum e protagonizado por Jennifer Lawrence e Chris Pratt, é bastante utópico e fantástico. A nave Avalon está transportando mais de 5.000 colonos em compartimentos de hibernação para o planeta Homestead II, uma viagem que levará 120 anos. Jim (Chris Pratt), por um problema em sua capsula, acorda 90 anos antes. Ao acordar, tenta de todas as formas se comunicar com a Terra, voltar a hibernar ou encontrar uma solução que não seja passar 90 anos dentro de uma nave espacial. Após mais de 1 ano sozinho e sem encontrar outra solução, Jim desperta a escritora Aurora (Jennifer Lawrence). Coincidência ou uma homenagem à Bela Adormecida que também chama-se Aurora?!

Um novo momento começa no filme. Aurora, assim como Jim, fica inconformada com o fato de que passará o resto de sua vida na nave Avalon. Assim como Jim, também tenta tudo que está a seu alcance para mudar o destino. Então, começa a rolar um affair entre o casal e eles se divertem por algum tempo, até que ela entende que foi ele quem a despertou.

Um novo clima toma conta da nave. Teria sido uma forma de assassinato? Jim havia roubado a vida de Aurora?

Independentemente da questão ética, fica evidente o quanto o ser enlouquece se não estiver na relação com o outro. Jim se relacionava apenas com máquinas e robôs. Ser condenado a passar o resto da vida só, sem um único ser, sem ver, sem falar, sem se relacionar com um outro ser, sem ter relação sexual... Antes de despertar Aurora, Jim havia tentado o suicídio e então retrocede e a solução que encontra é acordar uma outra pessoa. Uma pessoa escolhida. Estuda seu jeito e sua personalidade. Apaixona-se e a acorda. A chance de dar certo um relacionamento naquelas condições também é questionável.   

Porém, o que mais me chamou a atenção como psicanalista foi a radical questão do ponto de vista. O quanto, numa situação ímpar, a pessoa pode sentir como sendo um horror, ou pode ter um savoir faire frente ao real.

Em Jakob von Gunter um diário de Robert Walser* o personagem Jakob reflete:

“Por mais tola e ignorante que uma pessoa seja, se ela souber se portar, se insinuar, se souber fazer as coisas, não estará perdida: encontrará seu caminho na vida talvez até melhor do que o inteligente e o sabe-tudo. Importante é o modo como se fazem as coisas, ah, sim...”

Jim e Aurora se encontram numa situação limite. Uma situação sem saída. Nunca mais verão a luz do sol ou o mar. Nunca mais terão uma casa ou um trabalho. Nunca mais verão ou falarão com outras pessoas. Por muito menos, muitas pessoas entram em depressão, ficam ranzinzas e fazem inúmeros boicotes contra si. Porém, como diz Jakob; Jim e Aurora souberam fazer com sua realidade. Criaram, construíram, se apaixonaram. Fizeram o melhor possível que eles conseguiram naquela situação limite.

Por outro lado, Jakob von Gunter, personagem de Walser, tem acesso à vida, a pessoas, ao sol, a estudo, a trabalho e, não usufrui de sua vida. Não cresce, não progride, não se apaixona; assim como muitos que existem nesta Terra.

Como mostra o filme, é preciso ter uma decisão interna para usufruir a vida, para além do tempo, do espaço, da pressão e da temperatura. Mais do que a realidade externa, a realidade interna é que dá o tom e o colorido para nossas vidas! De preferência, em companhia!

Por: Fabiana Ratti, psicanalista. 


segunda-feira, 24 de abril de 2017

13 baleias azuis




Duas coisas têm colocado o tema do suicídio em debate: a discussão sobre o jogo baleia azul e a série 13 reasons why, traduzido em português para Os 13 Porquês (trailer no youtube). Resumidamente, o primeiro se trata de uma suposta dinâmica que acontece em grupos de whatsapp ou facebook onde os curadores colocam 50 desafios para os jogadores, na sua maioria jovens adolescentes mas não apenas. Esses desafios vão desde cortar a própria pele desenhando uma baleia – animal que dá o nome ao jogo – até o suicídio, que seria o desafio final. Já a série, disponível no Netflix, retrata o suicídio de uma jovem no ensino médio e conta, em 13 capítulos, as causas que a levam a se matar, sendo que cada uma das causas corresponde a uma pessoa do seu ciclo de convivência.

Além do forte debate em torno do tema, há uma polêmica em relação à responsabilidade da indústria cinematográfica em veicular conteúdos que retratem o suicídio de maneira tão fidedigna, como no último capítulo de 13 reasons why (atenção: spoiler!) quando a protagonista se suicida em uma cena que é quase um tutorial de como se matar. Isso porque vários estudos comprovam que noticiar um suicídio ou representá-lo, ainda que ficcionalmente, pode ter um efeito contagioso e levar um número de pessoas a se suicidarem. Esse fenômeno pode ser chamado de Efeito Werther, termo que faz referência ao personagem do livro “Sofrimentos do Jovem Werther”, escrito por Goethe e publicado em 1774. O personagem, que se mata no final na trama, teria influenciado jovens leitores da época e causado uma onda de suicídios na Alemanha. Não teremos como saber se de fato isso aconteceu uma vez que os registros da época não são precisos e há diferentes opiniões sobre o assunto, mas fato é que o personagem passou a dar nome ao efeito contagioso do suicídio. Por ser um assunto delicado, por trazer constrangimento às famílias e para evitar o contágio, a mídia costuma não fazer muitas reportagens a respeito, com exceção de momento como esses, quase que epidêmicos.

Questionados sobre a possibilidade de que a série induzisse jovens ao suicídio, os autores e produtores de 13 reasons why respondem que a ideia era mostrar da forma mais fiel possível o ato de terminar com a própria vida, para fazer com que fosse desagradável assistir e assim passar a mensagem de que esta nunca deveria ser uma opção.

            Não conseguimos perceber de que maneira representar um suicídio de forma tão explícita possa passar essa mensagem. Mesmo porque, Freud em Psicologia de grupo e análise do eu de 1921 cita Hitler e explica o fenômeno de massas que dominou o mundo Europeu no século passado. Freud é bastante enfático ao colocar a identificação com um líder, um laço emocional com uma pessoa forte que comanda, como responsável por cegar nações,  governar povos e levar pessoas a compactuarem com o assassinato em massa. Freud diz que ter alguém firme para liderar um grupo que no momento estava frágil pela questão das guerras, traz um norte para a nação, leva confiança às pessoas a ponto de cegá-las chegando ao cúmulo de compactuarem que matar um determinado grupo de pessoas do mesmo credo pode ser natural.

Podemos utilizar esse mesmo argumento para explicar o que está sendo falado do  fenômeno “Baleia Azul”. Ao que parece, existe um líder forte e determinado indicando uma direção a seguir. Por outro lado, adolescentes frágeis, isolados e angustiados com questões existenciais.

Sim. Assim como Hitler, o grupo, se existe mesmo, deve ser desmontado e seus líderes responsabilizados. Tanto o jogo quanto o seriado puxam a identificação para si e incitam o impulso de destruição e abrem as comportas para a pulsão de morte de maneira irresponsável e destrutiva. Porém, também abrem uma discussão que agora é irreversível, é preciso falar mais sobre depressão, melancolia e suicídio. É preciso incluir o aparelho psíquico na vida das pessoas.

Além disso, a série tem recebido críticas do mundo inteiro, pois a personagem que é suicida tem dificuldade de contar sobre sua intenção de se matar, e quando o faz não é escutada e tão pouco cogita-se a possibilidade de que ela esteja em sofrimento psíquico e precise de tratamento psicanalítico ou psiquiátrico. Sim, a forma como ela age é muito verídica e corresponde a vários casos de suicídio, mas se a intenção da série é orientar pessoas que estejam nessa situação, o roteiro deveria incluir esse tipo de encaminhamento como forma de sugestão e auxílio. Em resposta a esse tipo de crítica disponibilizou-se um pequeno documentário chamado 13 reasons why: tentando entender os porquês, também no Netflix, onde os autores, produtores e outros envolvidos no seriado falam sobre o tema. Neste estão presentes mensagens como “conte para um amigo, fale com alguém anonimamente, peça ajuda”. Há inclusive uma mensagem no rodapé da tela que diz “precisa de ajuda agora? Acesse 13 reasonswhy.info”. Nesse site o internauta coloca seu país e cidade de origem e é encaminhado para um serviço de atendimento ao suicida, no caso do Brasil o CVV, cuja procura cresceu muito desde que a série foi lançada.

De fato a procura por ajuda cresceu, mas será que isso justifica os inesperados efeitos prejudiciais que a série pode ter em pessoas que estejam numa situação mais frágil? Afinal, o ato não só é representado de forma absolutamente explícita como há uma ambiguidade na narrativa que pode levar à interpretação de que o suicídio é uma ação justificável e de responsabilidade das pessoas ao redor da vítima. Além disso, existem outras formas de quebrar  o silêncio em torno do tema sem criar conteúdos altamente lucrativos que ignoram estudos sobre o efeito contagioso de representações do suicídio. É o caso da iniciativa heads together, cujo último vídeo é um diálogo do príncipe William com Lady Gaga acerca de saúde mental onde eles conversam sobre como é importante falar do sofrimento psíquico e como não há vergonha nisso. O tabu é quebrado sem sensacionalismo.

O Prof. Dr. Arnaldo Liechtenstein da Medicina da USP tem ido a rádios e TVs discutir o assunto e nos faz refletir sobre a relação entre pais e os filhos desta geração. O Professor ressalta a distância que há entre eles. A rotina de trabalho muito puxada, crianças sendo criadas por babás, jogos eletrônicos que não estimulam a relação com os pais e o laço social entre os amigos.

As crianças e os adolescentes precisam de acompanhamento e monitoramento constante por parte dos adultos. Como sabemos, os adolescentes costumam usar as mesmas roupas, o mesmo corte de cabelo e as mesmas gírias, começam a ter comportamentos semelhantes ficando evidente que a identificação entre eles é muito rápida, deixando-os bastante vulneráveis. Desta forma, enfatizamos a importância do diálogo em casa e a mediação dos adultos para todos os tipos de assuntos, principalmente quando o conteúdo se refere à noção de vida e morte. Porém, os pais relatam a dificuldade em se aproximar de seus filhos.

O sucesso da série e a forte discussão sobre o jogo refletem o quão presente o tema está na nossa sociedade e, consequentemente, o quão urgente é reconhecermos que há um sujeito em sofrimento, e que o mesmo precisa ser cuidado. Esperemos que o debate acerca de produções cinematográficas como 13 reasons why e de debates sobre jogos como o baleia azul resultem em uma maior conscientização sobre a importância de respeitar e acolher aqueles com quem se convive. Contrariamente ao reconhecimento do suicídio como uma maneira válida de encaminhar sofrimentos psíquicos,  o que pode ser um efeito involuntário de tal tematização, aponte para a necessidade de cuidado com a saúde mental individual e coletiva, para o cuidado com a relação entre pais e filhos e do adolescente com outros adultos de referência, e ainda, que isso tudo leve a uma maior procura por tratamentos por parte daqueles que se encontram em sofrimento psíquico.

Escrito por:
Ligia Ungaretti Jesus, psicanalista
Fabiana Ratti, psicanalista
Paula Prates, psicanalista 

quinta-feira, 23 de março de 2017

O Lar das crianças peculiares



Por: Fabiana Ratti, psicanalista 

O Lar das crianças peculiares de Tim Burton (2016) revolucionou a minha casa. Minhas filhas de 7 e 9 anos amaram o filme! Inspirado em livros de Ransom Riggs, o filme conta a estória de um lar, coordenado por Miss Peregrine, onde ficam crianças peculiares. Cada criança tem uma estranheza e paradoxalmente uma habilidade. Uma consegue fazer fogo com as mãos, a outra levita no ar, uma engole abelhas, a outra consegue fazer crescer uma raiz no mesmo minuto. Elas vivem numa fenda temporal, ou seja, ficam presas num tempo específico da história e fogem dos etéreos, monstros que perseguem os peculiares.

Em casa, compramos todos os livros e lemos juntos imaginando com qual peculiaridade seria mais divertido ou mais difícil conviver. O livro também é maravilhoso. Foge dos contos de fadas previsíveis onde os mocinhos bonitos sempre terminam com as princesas, sem muitas vezes terem feito algo para isso. Foge do final feliz garantido e do maniqueísmo. O livro conta situações inusitadas, fala de personagens esféricos, tem um ótimo vocabulário e nos convoca a usar a imaginação. Excelente leitura!

Por um lado, tanto o filme como o livro nos provocam uma sensação de estranheza, como sendo algo muito distante de nós, por outro lado, Riggs está falando de todos nós. Cada qual tem sua estranheza, todos cometemos erros e temos hábitos que podem parecer bizarros aos olhos dos outros. Assim como temos habilidades ímpares e que se nos reunimos numa sociedade, cada qual tem a sua função, como no Lar da Sta. Peregrine.

Porém, como psicanalista, preciso lembrar aqui também a questão da inserção da criança especial na sociedade. O livro e o filme nos fazem pensar nas crianças que são realmente vistas como diferentes: crianças diagnosticadas com autismo, psicose, síndrome de down, PC paralisia cerebral, surdos, cegos, etc. Crianças que são obrigadas a viver em uma fenda temporal pois, por suas peculiaridades, não são integradas na sociedade e precisam viver em lares onde ficam todos confinados e convivendo apenas com outros peculiares, porque os ´normais´ não sabem conviver com os peculiares. Todos os peculiares têm uma solidão intrínseca a eles, uma dificuldade de convívio e aceitação na sociedade. O que tem de bonito no filme é que ele mostra quanta capacidade e beleza existe nessas crianças especiais.

No livro de contos de Riggs tem um que particularmente me chamou atenção, fala sobre o menino gafanhoto. É um conto fantástico que parece absurdo, mas me fez pensar sobre a criança autista que tem algumas particularidades e dessa forma, causa tanto horror nos pais. No conto, perante o horror do pai, a criança só vai se deformando e se afastando de maneira kafkaniana. Num segundo momento, o conto narra sobre a reflexão do pai e como é para um pai aceitar as características e as diferenças do filho, como é ter um filho que não corresponde ao que o pai esperava. O pai também passa por uma transformação, porém, de forma mais subjetiva. Num último momento, através do amor e da verdadeira aceitação da peculiaridade do filho pelo pai, o filho consegue voltar a ser ser humano e se integra na família.


Bela estória de amor e superação que todos nós, como pais, passamos, pois precisamos nos metamorfosear se desejamos ter filhos de carne e osso. Diversão e reflexão garantida para toda a família!    

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Curtindo a vida adoidado

       

           
Júlia Galli-Educadora
aeljugalli@gmail.com

              “Curtindo a vida adoidado” (Ferris Bueller's day off) é uma comédia adolescente filmada nos EUA no ano de 1986 e dirigida por John Hughes, (que também produziu e escreveu o roteiro). O filme conta a história de Ferris Bueller (Matthew Broderick), um típico adolescente americano, cuja maior ambição é ter um carro e o maior objetivo é aproveitar a vida ao máximo. O filme vai mostrar um dia de folga de Ferris, ao lado de sua namorada, Sloane Peterson e de seu melhor amigo, Cameron.

Por trás da aparente inocência e irresponsabilidade do enredo, o filme conta com cenas antológicas, roteiro bem construído e excelentes atuações, o que o torna um clássico do gênero, lembrando também, que o filme quebra a regra de ouro do cinema: o ator nunca deve olhar diretamente para a camera. A princípio pode parecer apenas mais uma comédia adolescente, mas à medida que vamos assistindo ao filme, ele vai se revelando ser uma crítica ferina ao descaso, incompreensão e cegueira dos adultos em relação aos anseios e angústias dos adolescentes, algo que poucos diretores conseguiram fazer tão bem como John Hughes. O maior mérito do filme é dar voz ao turbilhão de emoções dos adolescentes, com sensibilidade e humor. Outros filmes já falaram sobre essa difícil fase, como “Juventude Transviada” que apesar de belo, é um drama pesado (um chororô interminável), mas John Hughes consegue falar desses dramas de forma leve e algumas vezes até sarcástica, garantindo risadas do começo ao fim.

Enquanto os adultos, representados principalmente pelos pais de Ferris e pelo prepotente diretor da escola, continuam exatamente do mesmo jeito do início ao fim do filme, todos os personagens adolescentes passam por um profundo processo de transformação no decorrer da história. Cada qual a seu modo, buscando uma maneira de se auto afirmarem e amadurecerem.
          
             Começando por Ferris, que representa o típico adolescente americano, individualista e descrente do mundo em que vive, ele não acredita mais na família, nem na escola, nem em nenhum “ismo”, acredita apenas em si mesmo, e a sua única certeza é que a vida passa muito rápido, e seu lema é aproveitar a vida da melhor forma possível.  A verdade é que ele se recusa a ser como os adultos, e mesmo sabendo que esse processo é inevitável (o de se tornar adulto), ele não quer olhar para trás e ver que não aproveitou a vida.

             Já a namorada, vivida pela atriz Mia Sara, inicialmente se apresenta como uma adolescente que vive o presente e que quer apenas aproveitar a vida, enquanto não decide se deve ou não se casar com o namorado, em alguns momentos fica a dúvida se ela tem essa pretensão, pois em uma cena ela chega a mandar um beijo para o futuro sogro. Embora ela passe boa parte do filme sem nenhum plano para o futuro, ao final do filme, ela tem certeza de que irá se casar com Ferris.

Cameron (Alan Ruck) é o personagem que na minha opinião mais amadureceu no decorrer do filme. Ele é o melhor amigo de Ferris e, além de hipocondríaco, tem sérios problemas de relacionamento com o pai. Ele começa o filme numa cama, dizendo a Ferris, “me deixa apodrecer em paz” mas no decorrer da trama ele faz literalmente um mergulho dentro de si, cena por cena, passando por diversas etapas para poder enfrentar o pai e se emancipar. De forma surpreendente, ele se revela o personagem mais corajoso do filme, mais ainda que o nosso anti-herói Ferris.

Mais surpreendente ainda é a transformação da irmã de Ferris (Jennifer Grey). Jeanie Bueller é obcecada pelo irmão, e passa o filme inteiro tentando desmascará-lo. Nessa obsessão pelo irmão (mais precisamente pelo fato do irmão poder fazer tudo o que quer sem ser pego), ela deixa de ter vida própria, até acabar numa delegacia, onde é obrigada a olhar para dentro de si mesma. Na delegacia ela encontra um rapaz aparentemente drogado e desse encontro surge um diálogo revelador. Embora o personagem (vivido pelo ator Charlie Sheen) esteja (visivelmente) drogado, ele é o único que consegue ver de forma clara o problema dela. Pela primeira vez ela se depara com alguém que a enxerga do jeito que ela é, e que lhe dá atenção. Em um momento ele diz que sabe qual é o problema dela, mas quer ouvi-lo da boca dela. Mais freudiano que isso impossível.

Outro fato interessante do filme é que os personagens que a sociedade americana em geral considera como perdedores; começando por Cameron por ser tímido, a dupla de manobristas do estacionamento, um latino e outro negro, e o drogado na delegacia, são os que de alguma maneira vão causar surpresa e admiração nos espectadores, o primeiro pela coragem, a dupla pela esperteza e o drogado pela lucidez e discernimento. Por essa e muitas outras razões, eu considero esse filme o melhor de John Hughes.

Para não dizer que não falei do diretor da escola, fica a dúvida, será que ele deixou a sua arrogância e aprendeu alguma coisa com essa história? Bom, assistam ao filme e tirem suas conclusões.


quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Suíte Francesa





Por: Fabiana Ratti, psicanalista lacaniana 

Suíte Francesa (2015) é um drama romântico ambientado na Segunda Guerra Mundial, filmado na França e na Bélgica. O interessante deste drama é que fica muito clara a ação do sujeito individual no meio da massa. Também podemos observar como o ser humano é capaz de brigar por questões mínimas, por “narcisismos das pequenas diferenças”, como diz Freud.

Muitos filmes de guerra retratam esse ponto da participação individual. O sujeito é um simples executor de ordens de pessoas acima, impotente no meio em que vive e nada tem a fazer, ou poderia ter feito de forma diferente, e quem sabe, mudado a história?

Quando ouvimos falar de estórias como a do Sir Nicholas Winton (1), corretor do mercado financeiro que providenciou 8 trens para salvar crianças judias da cidade de Praga durante a Segunda Guerra Mundial; ou quando vemos A lista de Schindler de Spielberg, fica mais evidente a participação efetiva que um sujeito tem em sua sociedade. 

Em Suite Francesa, a situação é patética e por essa razão fica quase cômica, se não fosse trágica. Com a ocupação nazista, numa pequena cidade da Bélgica, as pessoas vivem em situação de tensão e vigília. A escassez de comida aumenta e o clima de guerra vai tomando conta da população, soldados alemães estão por toda a cidade.

Para levar comida para os filhos e a esposa, um colono rouba umas galinhas. O patrão não liga, sabe que a situação está difícil e fala para a esposa sossegar, deixar, não ficar controlando. A esposa não arreda pé e conta uma mentira ao marido dizendo que o ladrão de galinhas tinha a ofendido pessoalmente. Então o marido resolve protege-la. Não deixa barato, defende sua honra e presta queixa ao general.

Na hora de fugir, o ladrão de galinhas mata um soldado alemão. A cidade entre em guerra. Camburões e carros de guerra invadem a cidade. Revistam todas as casa com violência e munidos de todas as armas possíveis. As consequências são nefastas...

Fica assim evidente a participação do sujeito no meio da massa. Uma frase, uma mentira, um situação narcísica, pode trazer muita destruição a todos.

Por outro lado, o filme também mostra a participação oposta. A mocinha, interpretada por Michelle Willians, que a princípio parece inerte e bobinha, também tem uma brilhante participação individual e também prova que é possível se destacar na multidão e deixar sua participação especial.
De uma forma bem sensível, o filme mostra a responsabilidade das ações e das escolhas do sujeito, inclusive, na escolha do amor.  




(1)    http://oglobo.globo.com/sociedade/historia/morre-aos-106-anos-ingles-que-salvou-669-criancas-judias-na-segunda-guerra-16624415