terça-feira, 7 de novembro de 2017

O Mágico de Oz (1939) e Onde Mora o Coração (2000)



Onde mora o coração - Where the heart is – é quase que uma recriação do clássico O Mágico de Oz. Onde mora o coração (2000), drama Americano dirigido por Matt Williams e escrito por Billie Letts tem a excelente interpretação de Natalie Portman e colegas de elenco. Novalee Nation (Portman) começa como uma adolescente inconsequente e sem o menor juízo (redundantemente) e termina dando a volta por cima com bastante esforço, trabalho e amizades fieis. Assim como Dorothy, Novalee começa usando um sapato vermelho e tem problemas com ele.

Novalee tem uma vida bastante miserável. Foi abandonada pela mãe aos 5 anos de idade, não teve muito estudo, morava em um trailer e saiu grávida com o namorado que havia roubado um carro. Para onde eles iam? Quais os planos? As perspectivas de trabalho? Nada disso existia... Como se não bastasse, Novalee foi abandonada pelo namorado no estacionamento de um supermercado quando parou para ir ao banheiro e comprar sapatos novos pois havia perdido os seus. Assim como Dorothy, Novalee não sabia qual caminho pegar.  

A situação é muito difícil e, a princípio, sem perspectivas. Mas, Novalee, se refugiando nas noites que se seguiram no supermercado, começou a fazer amizades no entorno. Assim como Dorothy, Novalee fez quatro amigos fieis.

De repente, saiu na TV, virou notícia por um dia: teve seu bebê no Wall Mart... Assim como Dorothy, ganhou presentes e flores, foi recebida com triunfo!

Natalee recebeu a possibilidade de trabalhar no supermercado, foi amparada por uma amiga e soube agarrar a oportunidade. No começo, ainda agiu como a adolescente sem responsabilidade, mas, cada vez mais foi deixando a ‘compulsão a repetição’ e passou a dirigir sua vida segundo seu desejo. Esse já havia sido o abismo que sua mãe havia entrado, saindo em busca de homens que não eram parceiros, apenas devastação em sua vida.

Assim, Novalee seguiu o caminho de sua escolha e não das ofertas de satisfações pulsionais que a vida lhe oferecia. Novalee cuidou de sua filha, foi fiel a seus amigos, trabalhou e construiu uma carreira seguindo o seu desejo. Nas horas vagas, a personagem tirava fotos de eventos e casamentos, chegando até a ganhar prêmio! Ou seja, a personagem tinha tudo para seguir os passos de sua mãe, ou mesmo de pessoas à sua volta: ter vários filhos com homens diferentes, ser alcóolatra, viver na miséria. Mas Novalee soube construir, trabalhar e recebeu presentes da vida com isso.

Presentes e oportunidades que, como psicanalista, é possível perceber que muitos recebem, mas poucos de fato aproveitam e fazem jus a essas oportunidades.

Para esse caminho de construção de um lar, assim como Dorothy, Novalee precisou de coragem, de cérebro e de coração, tudo ela conquistou com a parceria de amigos fieis. No meio do filme temos até um tornado, semelhança mais do que explicita com o maravilhoso Magico de Oz. Sendo o Mágico de Oz representado pelo instrutor de fotografia... a volta ao lar se dá com a construções de nossos projetos e sonhos!  

Novalee se autorizou a crescer e fez escolhas que sustentaram seus projetos (trabalho, maternidade, amizade, vida), independentemente das circunstâncias iniciais. Somente um projeto ela teve dificuldade em se autorizar: o de ter um relacionamento bacana com um homem inteligente e sensível. Ela ainda se via como aquela menina franzina e abandonada (pela mãe e pelo namorado). Nem sempre o aparelho psíquico acompanha o crescimento da pessoa, isso gera a baixa auto-estima e o complexo de inferioridade, pontos tão danosos para a vida do sujeito. Foi somente quando ela se deparou com a castração, com o pai de sua filha amputado, que ela se deu conta de que a vida era curta e ela mesma quem deveria se autorizar a realizar mais um de seus sonhos e, mais uma vez, Novalee seguiu o caminho de seu coração. 

Por: Fabiana Ratti, psicanalista. 

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Rede de Atendimento Psicanalítico – Inconsciente Real –





Em 2011 começa a ser construída a Rede de Atendimento Psicanalítico – Inconsciente Real - em parceria com o Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, que é uma organização não governamental de assistência social e atendimento à saúde, que surge em 1981 em São Paulo.

Paula Prates, psicanalista, é uma das diretoras do Coletivo e a diretora da Rede de Atendimento, Tales Mistura, psicanalista é o coordenador da Rede; e a psicanalista Fabiana Ratti é a supervisora clínica e institucional; sendo esses três psicanalistas os gestores da Rede de Atendimento Psicanalítico – Inconsciente Real.

Em 2016, em decorrência da crescente procura por atendimento em saúde mental devido ao excelente trabalho e à divulgação nas redes sociais, inauguramos um grupo de estudos de Freud para o público em geral e chegamos a 2017 com mais de 15 psicanalistas em diferentes endereços para melhor atender à população: Pinheiros, Vila Madalena, Centro, Ana Rosa, Perdizes, Tatuapé.

A ideia da Rede é que todos os psicanalistas trabalhem sob o mesmo viés de atendimento, tenham a mesma técnica e, desta forma, que todos imprimam o mesmo padrão de qualidade.

A saúde mental é uma fatia do mercado que ainda está subutilizada. As pessoas saem da Faculdade mas não têm condição de atender, não têm experiência, precisam investir em supervisão, análise, estudo e alugar uma sala para atender; esse investimento fica caro, mas é preciso ser feito para o atendimento ser de qualidade e assim, o profissional poder construir seu consultório particular. Porém, vira uma bola de neve. O psicólogo não investe nesse momento inicial, recebe no consultório um ou dois pacientes encaminhados por família ou amigos, mas o tratamento não caminha, o sujeito não volta depois de 2 ou 3 sessões e assim, o profissional desiste de atender e a pessoa desiste de procurar atendimento devido à experiência ruim que teve.

Desta forma, muitas pessoas estão precisando de análise e muitos analistas estão querendo atender mas não sabem como. Um outro ponto grave nesta área é que em Instituições de Psicanálise as pessoas estudam teoria mas não há circulação de pacientes. Não há encaminhamento para os alunos e nem entre os colegas, deixando o estudo psicanalítico num abismo com a prática. Mesmo que os analistas façam algum curso que envolva clínica, o psicanalista atende uma ou duas pessoas, no máximo três, e sabemos que para sermos bons profissionais em qualquer área, principalmente na área da saúde, é preciso muita prática, “é preciso ter mão”, para realmente ter consultório, receber encaminhamentos e ser reconhecido na área.

Desta forma, o Coletivo se propõe a ser uma ONG que articula com a sociedade. A Rede de atendimento psicanalítico – Inconsciente Real é uma proposta que nasceu no Coletivo e agora quer articular com outras Instituições. Na Rede, o psicanalista constrói seu consultório em parceria com a Instituição sob o viés da psicanálise do “Último Lacan”, sob a perspectiva e a ética da clínica lacaniana. O psicanalista contribui com a Instituição e a Instituição dá seu retorno para a sociedade através de seus profissionais!

Telefone Rede de Atendimento: (11) 3862-9325         -  e-mail: inconscientereal@gmail.com
Telefone Coletivo Feminista: (11) 3812-8681            - e-mail: mulheresorg@gmail.com

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A Última Fronteira - The Last Face – (2016)




A Última Fronteira  - The Last Face – (2016) é um drama produzido nos Estados Unidos, dirigido por Sean Penn, escrito por Erin Dignam e protagonizado por Charlize TheronJavier Bardem. O filme discute a precária condição de vida e de subsistência que a África passa em situação de revolução civil e política. A narrativa perpassa a experiência do que aqui no Brasil é chamado de “Médico sem Fronteiras”, iniciativas de trabalho na área da saúde em parceria com a ONU para minimizar o sofrimento em acampamentos e cidades que sofrem ataques e estão em situação limite em todos os âmbitos da vida humana.   

Com cenas de violência e miséria, o filme abre espaço para muitas reflexões, pensaremos em algumas...

A primeira e grande pergunta que se estabelece no cerne do filme é: o que os profissionais de saúde estão fazendo ali? Qual a função deles? A pergunta se coloca pois são tantas bombas e tiros que a morte parece iminente para todos, o trabalho do médico apenas posterga a morte? É como “secar gelo”, um trabalho que parece não ter fim. Essa interrogação gera uma crise psicológica em Wren, a protagonista, e ela, na função de médica, deixa a mesa de cirurgia, montada de forma bastante precária, e começa a dar cuidados paliativos a uma senhora que perdeu as pernas, está para morrer e quer ver o filho.

A segunda grande questão é: numa situação limite, o que deve prevalecer, a saúde mental ou a psíquica? Wren tem um ataque após passar por uma sequência de situações traumáticas: é obrigada a sair do carro porque ladrões roubam o veículo, a equipe é obrigada a fazer a travessia a pé e passar a noite no meio da floresta, é necessário fazer uma Cesária de urgência no caminho e, entre outras situações, Wren vê uma pilha de crianças mortas após enfrentar um menino apontando a metralhadora para a equipe.


Frente a tanta violência, Wren explode em uma cena e fica evidente que para estar nessa situação é preciso incluir a saúde psíquica. Além disso, o filme interroga, será que essa população precisa “apenas” de alimento, cuidados básicos, saneamento, atendimento médico ou precisa também de sonho? Como é passar uma vida crua, apenas sobrevivendo, sem a condição maior que diferencia o ser humano dos outros animais?

Neste mesmo viés, o filme enfatiza que para o profissional de saúde estar ali é porque ele é idealista, precisa ter essa vida como seu sonho, pois a privacidade dele é engolfada pelo trabalho, além de, não ser um trabalho, digamos, simples. Como casar e ter filhos tendo uma vida aventureira como essa? Como ter a mínima privacidade de um romance? Miguel, o protagonista, é tachado de mulherengo por ter tido alguns relacionamentos em missão. Como não tê-los? Deveria ele abrir mão total de sua vida afetiva e sexual?

Junto com todos esses perigos eminentes, o filme ainda levanta o risco com o HIV. O sangue toma conta do cenário, corpos abertos e expostos, cirurgias feitas sem luvas ou proteções, bolsas de sangue contaminadas, sexualidade sem proteção.  

Sean Penn acerta no tom e na discussão. Um filme que envolve questões sérias da realidade, violência e muito afeto. 

Por: Fabiana Ratti, psicanalista 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

OKJA - um filme sobre contradições cotidianas




O filme Okja, dirigido por Bong Joon Ho e recentemente lançado na Netflix (28/6/2017), prova que é possível criar uma relação de empatia com criaturas quase monstruosas, as quais não inspirariam nenhum carinho na maior parte das pessoas à primeria vista.
Trata-se da história de uma super porca que mais parece um hipopótamo criada geneticamente em um laboratório nos EUA e que vive nas montanhas da Coréia do Sul com uma garota, Mija. O filme começa mostrando a rotina das duas na floresta, seus códigos de comunicação e até um episódio em que Okja salva Mija de cair de um penhasco se jogando em seu lugar. Há muito afeto na relação entre elas e uma calma de quem vive junto, em família. Mas, 10 anos depois, a empresa americana que havia incubido mija de criar Okja volta à Coréia do Sul para levar a super porca de volta à Nova York e fazer o lançamento de sua carne no mercado. E o filme segue mostrando esse conflito entre Mija, que quer salvar sua amiga do abatedouro, a empresa que investiu no animal e quer lucrar com a comercialização dos super porcos e um grupo de ativistas pró animais que quer expor a crueldade da indústria da carne.
Mas engana-se quem acha que o filme é exclusivamente uma apologia ao vegetarianismo e que o faz dando um nome ao animal e envolvendo o telespectador em uma relação de carinho com Okja. Paralelamente a isso há uma ironização bem humorada dos ativistas pró animais, pouco congruentes em suas atitudes e quase inocentes muitas vezes, e ainda, a própria Mija não é vegetariana. Ela e seu avô consomem outros animais e toda a aventura do filme se passa a partir da determinação de Mija em salvar Okja, não em acabar com a indústria da carne.

Assim, de forma extremamente bonita, bem humorada e respeitosa, o filme consegue nos fazer pensar sobre questões que caíram no esquecimento do nosso dia a dia. Contradições como porque temos tanta empatia por cachorros e gatos enquanto comemos um filé de vaca, como ouvimos discursos de paz proferidos por grupos que buscam essa paz através de violência, como apostamos na veracidade de políticas eco-friendly e “orgânicas” sem de fato sabermos quanto correspondem à verdade do produto que consumimos e ainda, como deixamos de questionar as práticas de reprodução e abate dos animais cuja carne abastece os supermercados. Tudo isso através de uma trama emocionante e delicada, muita ação e paisagens belíssimas.
Por: Ligia Ungaretti Jesus, Psicanalista. 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Winter, O Golfinho





Winter, O Golfinho (2011) é um filme norte americano dirigido por Charles Martin Smith. É um filme como poucos... divertido, alegre e emocionante. Ele consegue falar sobre um tema bastante difícil para a nossa sociedade, a inclusão. O filme é baseado em fatos reais: Winter, o golfinho, foi encontrado em 2005, enroscado em uma armadilha de caranguejo, numa praia da Flórida e levado para o Clearwater Marine Aquarium, um Hospital de criaturas marinhas. Por ter ficado tanto tempo enroscado, é preciso amputar sua cauda, dificultando sua forma de nadar.

No filme, ele é encontrado por Sawyer, um menino de 11 anos, solitário e sem nenhuma motivação para os estudos. Sawyer estabelece uma singular relação de amizade com o golfinho, começa a frequentar o Hospital e uma nova vida se abre para ele.

Com o tempo, a equipe percebe que algo precisa ser feito pois a forma com que Winter nada a prejudica, atingindo sua vértebra de maneira a possivelmente matá-la no futuro. Novamente o menino Sawyer busca uma solução para o querido golfinho. Sawyer tem um primo que, no exército, perdeu um pé e colocou uma prótese. O menino foi conversar com a pessoa que faz próteses e criam uma solução de prótese para o golfinho.

A trama não se restringe a isso. Paralelamente, o Hospital Marinho está quase para fechar, sem verba para continuar tratando os animais enfermos. Muito possivelmente uma construtora comprará o terreno para novos empreendimentos.

Novamente a solução vem de Sawyer. Uma festa de arrecadação de verba para Winter e sua prótese arremata todos os pontos da trama. Winter e sua prótese ficam famosas. Saem nos jornais e TVs. Muitas crianças com prótese querem conhecê-la. A construtora percebe um filão lucrativo unido à cidadania.

Smith, o diretor do filme, consegue o que poucos conseguem. Falar de amputação de membros, reabilitação e acesso a cadeirantes, sem cair em discussões piegas, ao contrário, deixa o filme leve, alegre e emocionante. Com a ajuda dos ótimos atores, consegue colocar um menino como ator principal da trama sem efeitos especiais hollywoodianos. Pelo contrário, Sawyer tem crises de consciência, fragilidades e age como um simples menino, inteligente e interessado, mas um menino, o que dá maior veracidade para a trama. No começo, podemos ver que Sawyer tinha tudo para ser o que, nos Estados Unidos, chamam de loser. Não tinha amigos, vivia sozinho e ia mal na escola. Então, o filme aponta algo bem psicanalítico. Quando o sujeito encontra o seu desejo, ele se transforma! Sawyer tem talento com animais marinhos. Tem jeito e interesse. A partir disso, sua “máquina humana” põe-se a funcionar. Sawyer passa a ter ideias, criatividade, dedicação; estuda, faz laço social, batalha, vive!

Em Winter, o Golfinho 2, a aventura continua tão emocionante quanto antes. O filme consegue discutir a inclusão de pessoas e animais com necessidades especiais, além da inclusão psíquica. No segundo filme, Winter passa por um período de depressão pois sua companheira de aquário falece e assim, novas conquistas são necessárias. Sempre com ética, ressalta o diretor do aquário, em uma das mais belas cenas em que um golfinho, após o tratamento, é liberado ao mar e tem a alegria de nadar naquela imensidão, reencontrando seu cardume.


Um filme emocionante que fala de amizade, companheirismo, trabalho e dedicação. Fragilidades, dificuldades e superações. Merece ser visto!

Por: Fabiana Ratti, psicanalista

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Passageiros e Jakob von Gunter um diário



Passageiros (2016), filme estadunidense dirigido por Morten Tyldum e protagonizado por Jennifer Lawrence e Chris Pratt, é bastante utópico e fantástico. A nave Avalon está transportando mais de 5.000 colonos em compartimentos de hibernação para o planeta Homestead II, uma viagem que levará 120 anos. Jim (Chris Pratt), por um problema em sua capsula, acorda 90 anos antes. Ao acordar, tenta de todas as formas se comunicar com a Terra, voltar a hibernar ou encontrar uma solução que não seja passar 90 anos dentro de uma nave espacial. Após mais de 1 ano sozinho e sem encontrar outra solução, Jim desperta a escritora Aurora (Jennifer Lawrence). Coincidência ou uma homenagem à Bela Adormecida que também chama-se Aurora?!

Um novo momento começa no filme. Aurora, assim como Jim, fica inconformada com o fato de que passará o resto de sua vida na nave Avalon. Assim como Jim, também tenta tudo que está a seu alcance para mudar o destino. Então, começa a rolar um affair entre o casal e eles se divertem por algum tempo, até que ela entende que foi ele quem a despertou.

Um novo clima toma conta da nave. Teria sido uma forma de assassinato? Jim havia roubado a vida de Aurora?

Independentemente da questão ética, fica evidente o quanto o ser enlouquece se não estiver na relação com o outro. Jim se relacionava apenas com máquinas e robôs. Ser condenado a passar o resto da vida só, sem um único ser, sem ver, sem falar, sem se relacionar com um outro ser, sem ter relação sexual... Antes de despertar Aurora, Jim havia tentado o suicídio e então retrocede e a solução que encontra é acordar uma outra pessoa. Uma pessoa escolhida. Estuda seu jeito e sua personalidade. Apaixona-se e a acorda. A chance de dar certo um relacionamento naquelas condições também é questionável.   

Porém, o que mais me chamou a atenção como psicanalista foi a radical questão do ponto de vista. O quanto, numa situação ímpar, a pessoa pode sentir como sendo um horror, ou pode ter um savoir faire frente ao real.

Em Jakob von Gunter um diário de Robert Walser* o personagem Jakob reflete:

“Por mais tola e ignorante que uma pessoa seja, se ela souber se portar, se insinuar, se souber fazer as coisas, não estará perdida: encontrará seu caminho na vida talvez até melhor do que o inteligente e o sabe-tudo. Importante é o modo como se fazem as coisas, ah, sim...”

Jim e Aurora se encontram numa situação limite. Uma situação sem saída. Nunca mais verão a luz do sol ou o mar. Nunca mais terão uma casa ou um trabalho. Nunca mais verão ou falarão com outras pessoas. Por muito menos, muitas pessoas entram em depressão, ficam ranzinzas e fazem inúmeros boicotes contra si. Porém, como diz Jakob; Jim e Aurora souberam fazer com sua realidade. Criaram, construíram, se apaixonaram. Fizeram o melhor possível que eles conseguiram naquela situação limite.

Por outro lado, Jakob von Gunter, personagem de Walser, tem acesso à vida, a pessoas, ao sol, a estudo, a trabalho e, não usufrui de sua vida. Não cresce, não progride, não se apaixona; assim como muitos que existem nesta Terra.

Como mostra o filme, é preciso ter uma decisão interna para usufruir a vida, para além do tempo, do espaço, da pressão e da temperatura. Mais do que a realidade externa, a realidade interna é que dá o tom e o colorido para nossas vidas! De preferência, em companhia!

Por: Fabiana Ratti, psicanalista. 


segunda-feira, 24 de abril de 2017

13 baleias azuis




Duas coisas têm colocado o tema do suicídio em debate: a discussão sobre o jogo baleia azul e a série 13 reasons why, traduzido em português para Os 13 Porquês (trailer no youtube). Resumidamente, o primeiro se trata de uma suposta dinâmica que acontece em grupos de whatsapp ou facebook onde os curadores colocam 50 desafios para os jogadores, na sua maioria jovens adolescentes mas não apenas. Esses desafios vão desde cortar a própria pele desenhando uma baleia – animal que dá o nome ao jogo – até o suicídio, que seria o desafio final. Já a série, disponível no Netflix, retrata o suicídio de uma jovem no ensino médio e conta, em 13 capítulos, as causas que a levam a se matar, sendo que cada uma das causas corresponde a uma pessoa do seu ciclo de convivência.

Além do forte debate em torno do tema, há uma polêmica em relação à responsabilidade da indústria cinematográfica em veicular conteúdos que retratem o suicídio de maneira tão fidedigna, como no último capítulo de 13 reasons why (atenção: spoiler!) quando a protagonista se suicida em uma cena que é quase um tutorial de como se matar. Isso porque vários estudos comprovam que noticiar um suicídio ou representá-lo, ainda que ficcionalmente, pode ter um efeito contagioso e levar um número de pessoas a se suicidarem. Esse fenômeno pode ser chamado de Efeito Werther, termo que faz referência ao personagem do livro “Sofrimentos do Jovem Werther”, escrito por Goethe e publicado em 1774. O personagem, que se mata no final na trama, teria influenciado jovens leitores da época e causado uma onda de suicídios na Alemanha. Não teremos como saber se de fato isso aconteceu uma vez que os registros da época não são precisos e há diferentes opiniões sobre o assunto, mas fato é que o personagem passou a dar nome ao efeito contagioso do suicídio. Por ser um assunto delicado, por trazer constrangimento às famílias e para evitar o contágio, a mídia costuma não fazer muitas reportagens a respeito, com exceção de momento como esses, quase que epidêmicos.

Questionados sobre a possibilidade de que a série induzisse jovens ao suicídio, os autores e produtores de 13 reasons why respondem que a ideia era mostrar da forma mais fiel possível o ato de terminar com a própria vida, para fazer com que fosse desagradável assistir e assim passar a mensagem de que esta nunca deveria ser uma opção.

            Não conseguimos perceber de que maneira representar um suicídio de forma tão explícita possa passar essa mensagem. Mesmo porque, Freud em Psicologia de grupo e análise do eu de 1921 cita Hitler e explica o fenômeno de massas que dominou o mundo Europeu no século passado. Freud é bastante enfático ao colocar a identificação com um líder, um laço emocional com uma pessoa forte que comanda, como responsável por cegar nações,  governar povos e levar pessoas a compactuarem com o assassinato em massa. Freud diz que ter alguém firme para liderar um grupo que no momento estava frágil pela questão das guerras, traz um norte para a nação, leva confiança às pessoas a ponto de cegá-las chegando ao cúmulo de compactuarem que matar um determinado grupo de pessoas do mesmo credo pode ser natural.

Podemos utilizar esse mesmo argumento para explicar o que está sendo falado do  fenômeno “Baleia Azul”. Ao que parece, existe um líder forte e determinado indicando uma direção a seguir. Por outro lado, adolescentes frágeis, isolados e angustiados com questões existenciais.

Sim. Assim como Hitler, o grupo, se existe mesmo, deve ser desmontado e seus líderes responsabilizados. Tanto o jogo quanto o seriado puxam a identificação para si e incitam o impulso de destruição e abrem as comportas para a pulsão de morte de maneira irresponsável e destrutiva. Porém, também abrem uma discussão que agora é irreversível, é preciso falar mais sobre depressão, melancolia e suicídio. É preciso incluir o aparelho psíquico na vida das pessoas.

Além disso, a série tem recebido críticas do mundo inteiro, pois a personagem que é suicida tem dificuldade de contar sobre sua intenção de se matar, e quando o faz não é escutada e tão pouco cogita-se a possibilidade de que ela esteja em sofrimento psíquico e precise de tratamento psicanalítico ou psiquiátrico. Sim, a forma como ela age é muito verídica e corresponde a vários casos de suicídio, mas se a intenção da série é orientar pessoas que estejam nessa situação, o roteiro deveria incluir esse tipo de encaminhamento como forma de sugestão e auxílio. Em resposta a esse tipo de crítica disponibilizou-se um pequeno documentário chamado 13 reasons why: tentando entender os porquês, também no Netflix, onde os autores, produtores e outros envolvidos no seriado falam sobre o tema. Neste estão presentes mensagens como “conte para um amigo, fale com alguém anonimamente, peça ajuda”. Há inclusive uma mensagem no rodapé da tela que diz “precisa de ajuda agora? Acesse 13 reasonswhy.info”. Nesse site o internauta coloca seu país e cidade de origem e é encaminhado para um serviço de atendimento ao suicida, no caso do Brasil o CVV, cuja procura cresceu muito desde que a série foi lançada.

De fato a procura por ajuda cresceu, mas será que isso justifica os inesperados efeitos prejudiciais que a série pode ter em pessoas que estejam numa situação mais frágil? Afinal, o ato não só é representado de forma absolutamente explícita como há uma ambiguidade na narrativa que pode levar à interpretação de que o suicídio é uma ação justificável e de responsabilidade das pessoas ao redor da vítima. Além disso, existem outras formas de quebrar  o silêncio em torno do tema sem criar conteúdos altamente lucrativos que ignoram estudos sobre o efeito contagioso de representações do suicídio. É o caso da iniciativa heads together, cujo último vídeo é um diálogo do príncipe William com Lady Gaga acerca de saúde mental onde eles conversam sobre como é importante falar do sofrimento psíquico e como não há vergonha nisso. O tabu é quebrado sem sensacionalismo.

O Prof. Dr. Arnaldo Liechtenstein da Medicina da USP tem ido a rádios e TVs discutir o assunto e nos faz refletir sobre a relação entre pais e os filhos desta geração. O Professor ressalta a distância que há entre eles. A rotina de trabalho muito puxada, crianças sendo criadas por babás, jogos eletrônicos que não estimulam a relação com os pais e o laço social entre os amigos.

As crianças e os adolescentes precisam de acompanhamento e monitoramento constante por parte dos adultos. Como sabemos, os adolescentes costumam usar as mesmas roupas, o mesmo corte de cabelo e as mesmas gírias, começam a ter comportamentos semelhantes ficando evidente que a identificação entre eles é muito rápida, deixando-os bastante vulneráveis. Desta forma, enfatizamos a importância do diálogo em casa e a mediação dos adultos para todos os tipos de assuntos, principalmente quando o conteúdo se refere à noção de vida e morte. Porém, os pais relatam a dificuldade em se aproximar de seus filhos.

O sucesso da série e a forte discussão sobre o jogo refletem o quão presente o tema está na nossa sociedade e, consequentemente, o quão urgente é reconhecermos que há um sujeito em sofrimento, e que o mesmo precisa ser cuidado. Esperemos que o debate acerca de produções cinematográficas como 13 reasons why e de debates sobre jogos como o baleia azul resultem em uma maior conscientização sobre a importância de respeitar e acolher aqueles com quem se convive. Contrariamente ao reconhecimento do suicídio como uma maneira válida de encaminhar sofrimentos psíquicos,  o que pode ser um efeito involuntário de tal tematização, aponte para a necessidade de cuidado com a saúde mental individual e coletiva, para o cuidado com a relação entre pais e filhos e do adolescente com outros adultos de referência, e ainda, que isso tudo leve a uma maior procura por tratamentos por parte daqueles que se encontram em sofrimento psíquico.

Escrito por:
Ligia Ungaretti Jesus, psicanalista
Fabiana Ratti, psicanalista
Paula Prates, psicanalista